7.30.2006


,

a roupa posta a
secar -

formatos
de mim que minha mãe
estendeu - entre
uns e outros, to-
dos coloridos
eu,

ela partiu

este último
trabalho terno
pra mim que minha mãe
ofereceu - entre
uns e outros, to-
dos coloridos
eu, molhando-me


,

,


,

casa tomada

"- Han tomado esta parte."
Júlio Cortazar (La casa tomada)




.


como escrever se
me rondam estes

uns, não me olham
mas sussuram e

discutem entre si
conspirando uma

verdade que não
saberei jamais?

.

estão lá todas as
cadeiras, mas se

falta gente que
as arraste


- se

esperar, irei
escutar-las o

arraste, mas não
haverá gente
que as arraste

.

são todos olhos

mas no ar não lhes sinto
hálito (de quem
me vê)

são todos olhos
e cedo irão me enxergar



.

7.29.2006

.



como ao cão velho
, espera e onda,

arfando lá há
ela, esposa

do pescador a
fabricar vento

na espera, fez-lhe
calos a espera

(pra
que esteja posta
a mesa quando
chegar)

são cracas

nas mãos no casco
do barco são as

escamas da espera
, arfa ela e o mar,



.



(nota desnecessária: Chopin, Balada nr.4, op.52 - Claudio Arrau)

.

o sol nasceu - mas
só se abres os olhos é que
o sol nascerá

.

7.28.2006

"eine Träne rollt in Ihr Auge zurück"
Paul Celan




uma lagrima
lhe volta ao olho

leva-lhe a voz
o vento, faz-lhe

da intensão uma
árida duna

uma lágrima
sequer

(roubou-lhe
o olho o pranto)


,


,

do farol velho

,


torre tombada
escamada de

cracas e verde
de anêmona

vejo a preamar
lhe esconder, baixa-

mar lhe revelar
sol a pino a me

desnortear num
imenso baixio

de areia onde jaz
cíclope cego


,


(nota desnecessária: "Poema sujo" do Gullar me tirou isso da própria memória, que me saiu com sabor a Alberto Martins de "Cais")

7.25.2006

.


e assim eu falo -

trazer como a um ramo
uma pálpebra
fechada, encontrada
a procurar a
beleza sob a folha
que pende duma
mão duma árvore
ir e vir a trazer
como ramo a ramo, num
amontoado,
uma hora qualquer da
infância, brilho
encontrado num muro
ou uma concha
para decifrar -

meu andar lento de
rio que esqueceu a foz e
não se quer ao mar
descançando duma
pressa qualquer, talvez
de fuga, esquecido


.

7.24.2006

; ; ;



o jardim soa
a água

(coberto de
chuva)

que vê teu
rosto emoldurado de
janela e o toca
com os dedos deslizando
carícias de gotas no
vidro
um céu de
chumbo abriga teu perfil
não estás ao alcance
dos meus dedos, se te toco
estás doutro lado
do vidro embaciado,
soando com o jardim,
vertendo chuva, partindo
quando o chumbo do céu
derreter com o próximo sol



.

7.22.2006

cais




à alberto martins
de sua leitura, Cais


,


meus olhos
ali fundeados


,


cais do porto e
ancorada a
mim a cidade
que me naufraga


,


cais do porto e
ancorado um
horizonte que
irá partir com
a noite


,


cais do porto e
o vôo de ave
que me tira o
lastro do olho





e à felipe k.
que me mostrou Cais




navego os olhos
sobre um mar tomando uma
colher de mar se
deixando ficar como
ilha que é um
flanco de baleia com
aves e ervas
ilha que se lhe tocam
pés submerge ao
fundo - até que os olhos
me salguem e cegos, sequem






~


noite e mar e nas
ondas, asas - caem
espuma aos pés
da gaivota -
quebradas - que num
vôo, leva o susto e o branco






7.20.2006



`



lençol azul em
que dormes - és nuvem e
minha mão, ave


,



de noite troco
as mãos por olhos que te
afaga os sonhos


`


,


you are myriad
in my memory
, spots your face
in any page that I read -
when will be able to listen to you,
noisy in silence?



georges séféris

haiku

" ... cet infiniment petit..."
Marc-Aurèle (III, 10).

.

Jette dans le lac
une seule goutte de vin,
le soileil s´obscurcit

lança ao lago
uma só gota de vinho
e o sol se escurece

,

chaises vides
les statues sont rentrées
dans l´autre musée

cadeiras vazias -
as estátuas retornaram
ao outro museu

,

femme nue
la grenade qui s´est brisée était
pleine d´étoiles

mulher nua
a romã que se parte
cheia de estrelas

,

comment rassembler
les mille infimes débris
de chaque homme?

como reunir
os mil ínfimos restos
de cada homem?

,

qu´a donc le gouvernail?
la barque décrit des cercles
et pas même une mouette

que se ter por leme?
o barco descreve círculos
que nem mesmo a gaivota

,

elle n´a pas d´yeux -
les serpents qu´elle tenait
lui dévorent les mains

não tem mais olhos -
as serpentes que tinha
devoram-lhe as mãos

,

tu écris
l´encre a baissé
la mer monte

tu escreves
seca a tinta
sobe o mar

.

de G. Séféris, Poèmes (1933-1955), Mercure de France, 1963.
trad., Eiichi

7.17.2006



normalmente feios
até os corvos ficam belos
na manhã de neve
Basho

.

cumpriu-se o dia
em que os corvos são belos

primeira neve
e veio-me o esquecimento
de mim ao ver o
mudo cintilar branco
que cobriu casas
árvores bicho e gente

silenciado
mundo (como um primeiro
dia) e a aridez
do céu plano mar aonde
belos corvos negros nadam


;


tokyo, 22 de janeiro de 2005

7.14.2006


,

olha-me e olho
penso o quanto menos me
é nítida a
paisagem se não há um
ecoar do teu
nome em algum lugar
reverberando
folhas de uma árvore
como um cicio
que cintila um inseto
e o chão que não viu
teus passos são olhos de
estátua com a
aridez de um mar todo
vento e espera

e cai-me uma ave
no lençol azul
de asas negríssimas -
são teus cabelos
que negros roubam um sol.
Num afago eu
acho um sol e esse sol o
devolvo à paisagem,
mudo com meu segredo

(meu amor não sabe
dizer, não sabe contar)


7.12.2006

minotauro

,

tinha na infância
um monstro e um jogo -

juntava à mão
pedaços de bichos e
gente, fiz-me
perder num labirinto
imensurável
que é este jogo infantil de
perder-se toda
tarde, a vida grande
tarde (o tempo
fazendo seu ruído
de unha a crescer)
e uma tarde tinha
saído do outro lado do labirinto -

teremos sorte
se ninguém houver sido
devorado nas tardes
perdidos no labirinto

.

7.10.2006


;

o sonho é uma
claridade que me
disfarça a noite -
cai-me em mim e ao corpo
quando a luz foge
com a última ave e
um dia a ave
voltará e não haverei
e não haverá
eco da claridade
que me cobria a noite

.

7.09.2006

diálogo


felipe:

súbita manhã,
lágrimas ao mar - tornam
olhos da noite errante

,


eiichi:

susto de acordar -
cae-me o peso do sol nos
olhos (que me voam de noite)

.


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.



.

diálogo



felipe:

E a noite sou eu própria! A Noite escura!”
(Florbela Espanca)


o que dizes de mim

quente era a vida.
leve, a noite. aflitos,
sabiam os olhos
a melancolia - que
tão pouca, inexistia.


eiichi:

“Poentes de agonia trago-os eu”
(Florbela Espanca)

o que digo de ti

poente desta
terra nascida sol - se
me deitas olhos
que me dizes entardecer,
vejo as aves que te voam



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7.08.2006

poça d´água:


larvas de duas
cores - duas n´água -
vibra o espelho
sujo - pombo que pousa -
carimba letra
vermelha dos pés n´água
negra - pousa o reflexo
da luz de mercurio
- um sol pisado -
voa o pombo - comida as
larvas - fica o sol
que se irá apagar

.

7.07.2006

do diário terno


.

se uma lágrima
tua me molha a face
o sol se apaga?

.
.

tudo que vi
no quintal era uma
língua de um outro -

tudo lhe foi
confidência nesse seu
exílio de muros
altos e nus, por onde subiam
em fuga ervas-
de-passarinho e heras
e um escasso sol
que vinha a seu passeio
mudo, passando
em revista a uns vasos
enfileirados
(brilhou prata o som de
um besouro que
passou, fugitivo)

o
outro que se fez
da cor de humus, cheiro
de verde podre e
grandes formigas pretas

cresceu sem fazer
ruído pra que não o
viesse salvar,
e certa vez, saí do
outro e sua
língua de quintal,
que ficou ali -

manda-me cartas de exílio
volta e meia, tristíssimas

,



7.05.2006

dois mortos

.

Meleagro

fui nascido de um
fogo doméstico, mas
esqueceste do
tição que me faria
cinza, mãe - que eu morra só.

.

Safo

fiz-me espuma ao
dar-me ao mar. Quis-me o canto e
fui desejo. Não
há paz - no mar mesmo aos
mortos revira as ondas.

.


7.04.2006



.

travesseiro e
uma camisa, a colher
e flor a secar:
o altar está pronto
e ali deitas
ao sol o que te restou
na minha ausência:
um travesseiro,
a camisa branca, colher,
flores. Ofertas de
mim, mãe, meus olhos e
deixa-me ver que
colheita fazes do sol:
saberei que eu
também estive neste
altar um dia
e fugi. Se já não me tens
ao sacrifício,
te resta minha ausência
num travesseiro,
numa camisa, na colher
e na flor a secar.

Eu também já sei
ofertar ao sol, mãe: eu
afago um rosto
quando o sol nasce em nós e
o sol te reconhece em mim.


.

.

lua diurna -
cegado de vésper e
sem o gosto de
sonho algum nos olhos, me
espero pra te acordar

.

7.02.2006

haiku de infância

.

espremo a casca
dum limão na formiga -
perfumo a morte

.

7.01.2006

histórias familiares

.

"- Arranque-lhe a
cabeça e a guardes na
petisqueira da
copa" (entre bolos que
esfriam, potes
de compota e caixas
de biscoitos) "de
manhã o marmorite
não será frio nem
de tarde o sol lhe toca,
suando-lhe as
bochechas, amolecendo
os biscoitos nem
moscas verdes" (ou
desagravos de amor) "lhe
pousará à testa -
há um lenço de renda
pra os cobrir, há
as crianças que roubam
na sesta doces
e podem quebrar louça
ou a cabeça... "

(sempre a cabeça
entre cheiros de doces
e a fumaça
da alfazema e folhas
frescas de oriza)

No marmorite verde
(madrepélolas
ao invés do mármore)
muda a cabeça
como um monstro marinho
que adormece num
glauco de algas. Dias
de festa, orna-a
papeis-de-seda brancos
dos alfinins e
suja-a de amarelo os
ovos moles dos
pasteis santa clara e os
respingos do arroz
de galinha. Ao final,
passa a noite com a
louça suja na pia.
Dias de calor
sua-lhe as têmporas e ao
frio, mofa-lhe o
nariz, mas sempre o olhar
de atenção.

Herdei
petisqueira, louça e a
cabeça quando
minha vó morreu. Trouxe-as,
memórias caras
da infância. Não importa
se a louça é kitsch
e a cabeça, démodé:
há nas rosas pintadas
das xícaras e
nos olhos atentos da
cabeça o sabor
dos alfinins, o cheiro da
oriza fresca
e quando faço o arroz de
galinha, a cabeça sorri.

.

.

erva nascida
num vaso de semente
não plantada um
desaparecido a
gota d´água que cai
do céu em dia
de sol (e me escorre um
suor na testa)
meu nome ouvido numa
casa vazia
cego que me sorri um
besouro verde
na cama como um caco
verde na lama
- como hei-de morrer-me
se tais coisas existem?

.

PS: JLBorges é outra das minhas perplexidades, à quem ofereço esse poema.


.

que vira um anjo
já o sabes, que te contei
(remexo o molho
do spaguetti no prato
cheiro à salsa
manjericão vaso na
varanda mesmo
cheiro de azulejos da
cozinha vento
que traz este cheiro à mim)
o que não sabes
é que não creio em sonhos
- já não os lembro
quando acordo (do cheiro
verde em azul e
branco - majericão e
azulejos - que
trazem infância e anjo à
mesa) o que não
sabes é que não conto
meus segredos - eu
creio em segredos. Que em
ti eu creia não
o sabes, que eu não contei
(sei que verás um anjo) .

.

[quinta 29 de junho, jantando]

須藤 フェィペ [Sudo Felipe]


sol por um rasgo
na vidraça a tua dor
insiste em arder -
qual a noite entoasse
o seu póstumo canto

.

sol esse fosso
a dissimular calor
enquanto adverso
faz que desperta o dia
ao brilhar - tão somente...

.

sol acabado
e tudo foge ao olhar -
neste instante em que
da tarde apenas restam
folhas molhadas ao chão


.

http://felipesudo.blog.uol.com.br/

.

Nota: numa coincidência, fizemos no mesmo dia (mesma hora, dizem) poemas com o mesmo cenário (ele três tankas eu, dois chokas). O sentimento é similar também, talvez induzido pelo sol que se punha, por uma vidraça e pelas folhas. Estranha coincidência. Assustadora conexão:

http://mizunooto.blogspot.com/2006/06/blog-post_27.html

http://mizunooto.blogspot.com/2006/06/narita-ida-e-volta.html

yi sán

poema n.7

nesta terra de remoto exílio um ramo . no ramo floresce uma flor brilhante . peculiar árvore florida de abril . trinta voltas . espelho claro nos dois lados pré pós trinta voltas . a lua cheia que decai agora agora em direção ao horizonte alegrerridente feito um broto novo . em meio ao ímpeto do riacho límpido do vale a lua cheia toda estropiada que derrui penalizada com o nariz decepado . uma carta vinda de casa atravessa esta terra de exílio . eu de mal em mal protegi-me de louvores . broto da lua esmaecido . o longíncquo da camada atmosférica cobrindo esta quietude . esta grande caverna oca de um ano e quatro meses em meio à grandiosa miséria . astros coxeiam tropeçam e por ruelas mortiças de astros milestilhaçados a grandiosa neventania foge . cai nevasca . pedestral tingida de vermelho-sangue pulverizando-se . com meu cérebro como um pára-raio, restos mortais encharcados de luz transbordantes de luz vão sendo transportados . eu uma cobra venenosa em exílio na torre acabei plantado no horizonte e nunca mais pude mover-me . até que desça a graça dos céus

.

Yi Sán (1910-1937), coreano, êmulo oriental do dadaísmo

trad., Yun Jung Im, revisão Haroldo de Campos - Olho de Corvo e outras obras de Yi Sán, São Paulo, Perspectiva 1999 (Signos 26)

Neste poema vê-se ecos de sijô, fórmula tradicional da poesia coreana durante a dinastia Yi (1392-1910), de raiz confucionista (anti-budista):

Na Ilha de Hansan
sol lua clara
sento-me sozinho
na torre de guarda
suspiro
fundo
na bainha
a grade espada

(Yi Sun-shin)

A lua brilha
no céu claro
depois da neve
da noite passada
a lua
depois da neve
é sempre
muito clara
somente as nuvens nos confins do céu
vão
e vêm

(Shin Hûn)