7.29.2008


i.
ao fim de varios remos esquecidos
e mais um, de esquecimento, o fim:
do mangue, a margem: cruenta
de folhas e patas, repastos
de maré. ramos escoram
o fim do dia cedo. noite redura.

ii.
gesta o chão. dedos-lenho em
árvores e flores de garras
de caranguejos. remoendo
lama, água-viva de maré.
. . . . . . . . . . . . realejo
de  tempo  entre cinza e
o verde no imóvel vento.

iii.
chama sem luz. espelho
baço d'água em espera
de rumorejos. carcome
lama e olhos à espreita,
chão viva-água: estuário:
raso permanecer de coisas.

.

guamá
por dentro, o alento
de palavras
tal 'melgaço' 'alado' e nos barcos
que leva seu flanco de lama

leva no ventre
quietudes
de quintal sombreado e o 
odor passado de fruta

caixa de guardar
o esquecido
sol à esquerda da tarde,
marés e tempestades

seus olhos se
apagam na
noite, toldando mais que
a calma e escuridão

enraizada margem.
imóvel
bronze líquido, frio,
enfurecido de tempo

espera incompreensível
do afogado,
dele emergir flor ou
peixe em prata

rio, só vivo e fala
se tocado
pelos dedos da chuva.



7.15.2008

(transliterados do chines)

.

nas montanhas, floridas, só, busco te achar.
soa o machado, estala e cala. silêncio cresce.
o cervo vaga nestas matas, não sabes, nada busca,
nada busco: auras da lua prata, argêntea noite.

apenas teu pensamento, negror sem chão, caminho
perdido - sinto-me vaguear neste todo navio vazio.

.

vivem dois, vida vaga sem
encontro, como Orion & Ursa
sem noite: dois amigos
juntos longe, vela e pavio
oscilando. E jovem-ser não dura.
já grisalho, onde o amigo?
ausência - fantasma.
longe e só, vela fria.

.

.

7.13.2008

wang wei 王維 (tang dinasty, 618-907)


(i)

sitting in mystic bamboo grove, back unseen
press stops of long whistle
deep forest unpierced by man
moon and I face each other


ezra pound


(i)


bamboo lane house


sitting alone, hid in bamboo
plucking the lute and gravely whistling.
people wouldn't know that deep woods
can be this bright    in the moon.


garry snyder


(iii)


bamboo-midst cottage


sitting alone in recluse bamboo dark
I play a ch'in, settle into breath chants.

in these forest depths no one knows
this moon come bathing me in light.


david hinton


(iv)


moon


alone sitting in bamboo and mist
lute playing & grave chant

deep in woods,
an unseen bright


eiich


(.)




.

transliterado livremente de K. Roxroth (que traduziu de Lu Chi)


ela pensa no amado


vai chover.
fria
brisa treme as folhas do
pé de canela. espalha
begonias no chão. mil,
as pétalas que caem.
folhas rubras voam ao vento.
vento levanta vortex de pó.
o mundo treme. vento
entra pela janela, esfria minha pele
e defaz meus cabelos - só,
sonho no amado
nas margens do céu, longe,
além das torres, serras.
vejo aves voltarem no 
céu a constelar - 
pudessem levar uma carta. mas 
é longe, nunca
chegariam. rios chegam
ao mar. nada faz o rio voltar
à fonte. lustre e odor doce -
magnólias perdem pétalas
de dia e de noite,
guardo pena e papel
no silêncio e solidão.
apenas o som no peito
escuto e me assusto.
a lua rompe as nuvens. tento
escrever um outro poema na 
noite interminável.


.

7.10.2008

.


de E. Pound para H.D.


cria da erva
anos passam Sobre nós
sombras de ar Todas a nos Amar
ventos aos amigos
marrons e amarelos
do outono nossas cores
da nossa vida, a aurora. Façamos nós as juras
de Nunca envelhecer
nossos espiritos AO encontro enlaçados
como nunca antes contado
das florestas & matagais
Irá nos vir: guarda o selo & amarra
nunca sentiremos
da mágoa o toque

(...)


.

tradução livre

7.03.2008


.

silêncio empanturrado:
tarde que dura uma febre

e se espera a maré de
acordar, pondo passos
e vozes a arar este sono,
até que revirado,
venha o por-do-sol
com pés lentos de semeador

.

7.01.2008

ao jeito provençal
sugerido de arnaut daniel

.

aura amada
faz brunir brancura
claror
que doira espessa das folhas,
e adoça
bicos
de passarinhos
repasto e mesura
de pares
e não pares;
não por mim que me esfalfo
que faço e digo
prazeres:
na mão de ti
me viras verso e reverso;
antes morrer
se não vejo tua sombra

.



noite que me aclara,
primeira luz, lua,
fervor
que a aurora tolda
e amortalha:
o seio
intumescido
de nuvens róseas desfigura
da vésper
a claridade;
acordo e me perco
de estar contigo:
fazeres
da mente em ti,
sonho que rego e colho e
vem o amanhecer
a esfumar nele tua sombra

.





,

dar
o nome
às ondas



(iridescentes crespos
das bordas do mar)



espera
roídas por gaivotas-
termitas-aladas
até que lhes espante
a primeira estrela

.