11.26.2006

partida

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as nuvens baixaram até roubar o morro do mar,
deixando em seu lugar uma cortina
glissando a vista, suspensa por um grande
dedo invisível, flutuante e úmido.

manhã estranha - e há qualquer lugar vazio.

há qualquer coisa vazia além de uma falta.
talvez um ruído menor que o dia faz
como se não quisesse perturbar um adormecido
ou uma luz de menos. Posso conversar com esta ausência,
ela pode mesmo me escutar, calar e deixar de responder,
como agora, como se fosse domingo ou se não quisesse me atender
e ficasse, uma senha e eu,
a esperar um chamado de número ou nome.

o morro ausente espera,
as ondas aguardam em qualquer lugar
as aves se cansaram ou já sabem o que há pra saber.
e ficarei eu e meu cinza a espera deste vazio
que nos diga que nos vá.

e tu foste com o que falta e que a nós todos
nos faz esperar.



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11.19.2006

Madrigal

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J´ai hérité d´une sombre forêt où je me rends rarement. Mais un jour, les morts et les vivents chageront de place. Alors, la forêt se mettra en marche. Nous ne sommes pas sans espoir. Les plus grands crimes restent inexpliqués, malgrés l´action de toutes les polices. Il y a également, quelque part dans notre vie, un immense amour qui reste inexpliqué. J´ai hérité d´une sombre forêt, mais ja vais aujourd´hui dans une autre forêt toute baignée de lumière. Tou ce qui vit, chante, remue, rampe et frétille! C´est le pritemps te l´air est enivrant. Je suis diplômé de l´université de l´oubli et j´ai les mains aussi vides qu´une chemise sur une corde à linge.
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Vim de uma floresta sombria aonde raramente torno. Mas um dia, os mortos e os vivos irão trocar de lugar. E então, a floresta por-se-á em marcha. Não somos sem esperanças. Os maiores crimes ficarão inexplicados, ainda que ajam todas as polícias. Há igualmente, em algum lugar das nossas vidas, um amor imenso que permanece inexplicado. Vim de uma floresta sombria, mas hoje vou a uma outra floresta, toda banhada de luz. Tudo vive, canta, buliça, rasteja e salta! É a primavera e o ar é embriagante. Sou diplomado de uma universidade do esquecimento e tenho as mãos mais vazias que uma camisa estendida no varal.
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Tomas Tranströmer
Pour les vivents et les morts (1989)
in Oevre Complètes 1954-2004 Poésie, Gallimard.
(tradução para o frances, Jacques Outin.
para o portugues, Eiichi)

carta

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manhã,
silêncio de grande estúdio
- nuvens encobrindo o sol como a
uma porta fechada, onde se habitasse o
inimigo


dez horas - tua ausência amanhã e depois e sempre me pesa como a mudez do livro que me emprestaste, e sua geometria imóvel. do pássaro que habita a marquise da minha janela, sem penas, numa espera feroz por voar, por ir um dia num vôo incerto. da paisagem paciente, de pedra, que me fita erodida e vegetada do leste, moldurada de prédios, indiferente.

e fazes silêncio ao compreender
tudo isso,
como eu


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haïkus



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a chave a trancar
é Deus

e Sua ausência
do outro lado


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é um ruído
do outro lado: canta
um pássaro


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esperemos aqui
que ele abra

"- dá-me a mão
e O esqueceremos"


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11.17.2006

sombra


,


num assomo de ladrão
que me vem pelas costas,
sem se ver,
só,
há minha sombra

minha sombra, que me leva
como ao contrabaixo,
fardo pesado
e recurvada,
se arrasta
por mim

tudo que agora diz
é de horas que me traz
como ao grande instrumento
que não afina, que não irá servir
para tocar até que nos vejamos de frente,
descoberto e afinado,

no dia em que nem eu nem ela vejamos
a tarde terminar nem a manhã se prometer


.


para guillaume,

11.16.2006

ausente do jardim



,


chegaste muito tarde
- apenas o sol,
rebrilhando em raios
na teia vazia.
a aralha, esta,
farta e alheia,
acaricia a presa

chegaste muito tarde
- a mudez da pedra
ainda quente,
seco o musgo
do estio.
a fala e o suspiro
da rega que faltou

chegarias muito tarde
se não encontrasses
sequer o ninho
- mas agora,
aqui o tens:
está vazio



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11.09.2006

Ilíada, canto VI

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que me importa
desta linhagem -
qual folha,
qual
cairá da árvore
qual ficará
qual
verá folhas
novas a nascer,
verdejarem -
ao final,
todas no chão
nós, folhas



.

dezembro




mes seguinte me
prometeu ser tão chuva...

- vem-me a chuva, o
café, os lençóis
quase úmidos e assustados, num
repelão tirados
do torpor morno
da janela, da manhã
que fora quente

me esqueço do mes
seguinte ao dobrar
uns lençois na
lembrança -
passado,
uma súbita chuva de verão


"- tira-me os lençois
da janela, que chove"

(cheirando a sol no
branco)

"- vem tomar café"

(cheiro negro de
café)


me esqueço que
haverá mes seguinte.

antes não nos houvesse
cessado a chuva
naquele dia,
incessante,
haverímos de
esperar até o
mes seguinte,
este,
que me quero esquecer


...

11.07.2006

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à sexta hora, em impaciências de sinos, vem a noite -
nada mais, além de mim,
à espera




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novembro



há verão
no instante em que
a ave que
se escuta
e o mar,
silencia

- branco de azulejo
úmido, num susto
um calango verde
a maciez amarela
de uma folha podre
no abafo de um jardim -

e do azul, o silêncio

há verão no gesto
largo da maré
trazendo cores
do por-do-sol

sem pálpebras, olho

somente o som
de um vôo
e a espera
- o verão


.