8.29.2006

eurídice

a orfeu:



o mundo te tem
na voz que roubam
ervas e árvores
e não chega às
raízes, não me
vem escorrida
por raízes, por
vermes, suja de
terra, ecoada
de morte - mas vens
a mim - a voz o
toque mas não o
olhar - nos meus, teus
olhos são ecos
como o eco do
mar na concha -

seca a concha do mar

que não a tem mais


.

.


o poema é um
castigo, houve

quem dissesse - quem
disse, sentiu-lhe

o cristalecer
na pele (farpas)

e ao final seu
som de copo que

parte, feriu-lhe
os ouvidos - é

um castigo se
tens um poema



.

8.23.2006

,


floresta de sombras
de folhas sob a copa,
a quilha que oscila,
um cão manquejando -

da árvore,
da partida,
da dor - só o vento,
o ruído

do sem abrigo,
do exílio,
de mim - só, há tempos
silente,
deixando-me crescer ervas
ao muro (que pensei haver ruído
um dia) que me esconderão
a casa abandonada


8.21.2006



da água aceite a
presunção de já
ser noite pela
tarde ainda, de
guiar (confusa,
sendo mar) aves,
flutuar-nos o
barco, cintilar
(um silvo prata)
toda luz todo
céu

não aceite
é que lhe seque deste dia

,


(baía de paraty, de um barco)

8.16.2006

memória

,


não lembras em ti
(na pele, talvez)
ao fogo visto
primeiro por um
ancestral nosso
(o mesmo, mesmo)
o vento, este o
vento, arranhando
a pele infantil
de um maior nosso
(o mesmo, um dia)
do carvão que fez
um animal na
pedra e a mancha
na mão (a mesma,
que nos deu linhas
na mão iguais) da
pedra com que se
cortou (a pele)
este mesmo um
maior?

- agora
nós dois somos já
tão diferentes,
dizem -

mas como a um
vinco no rosto,
trazemos a mesma
memória: a mancha
o carvão o vento o fogo a pedra
- um tudo que já
não lembramos em nós



.

Renga (1969)*

Octavio Paz
Charles Tomlinson
Jacques Roubaud
Edoardo Sanguinetti


I



El sol marcha sobre huesos ateridos:
en la cámara subterránea: gestaciones:
las bocas del metro son ya hormigueros.
Cesa el sueño: comienzan los lenguajes.
and the gestureless speech of things unfreezes
as the shadow, gathering under the vertical
raised lip of the columns´ fluting, spreads
its inkstain into the wrinkles of weathered stone:
Car la pierre peut-être est une vigne
la pierre où des fourmis jettent leur acide,
une parole préparée dans cette grotte
Principi, tomba e teca, sollevavo salive de spettri:
la mia mandibola mordeva le sue sillabe di sabbia:
ero reliquia e clessidra per i vetri dell´ occidente


.


O sol anda sobre ossos congelados:
na camera subterrânea: gestações:
as bocas do metro são já formigueiros.
Cessa o sonho: começam as linguagens.

E a fala sem gesto das coisas desata
como a sombra que, ao se congregar sob a vertical
estria saliente da coluna, espalha
sua mancha de tintas nas rugas da pedra gasta:

porque a pedra é talvez uma vinha
a pedra onde as formigas lançam seu ácido,
uma palavra preparada nesta gruta

princípios, tumba e cofre, levanto salivas do espectro:
minha mandíbula mordia suas sílabas de areia:
eu era relicário e relógio d´água pelos vidros do ocidente



(tradução: Eiichi)


*nota: esta tarde achei no Sebo Berinjela este precioso exemplar de Renga (Gallimard, 1971), do qual ouvira falar, mas nunca pensei em encontrar. Trata-se de uma experiencia poética: em abril de 1969 estes quatro poetas europeus isolaram-se por quatro dias num quarto de hotel para escrever diversos "rengas" que se interligam num único e extenso renga (que significa "cadeia de poemas") - forma poética japonesa coletiva, desenvolvida ainda no período Heian (794-1192), cujas regras são estritas e complexas, excluindo o mero jogo de azar e os caprichos de um diálogo fantástico e aleatório. Apresento a tradução do primeiro. A ordem de autoria segue a enumeração dos autores acima.
Há uma versão equivalente no Brasil: Fala entre parêntesis (Edições GRAPHO, 1982, Belém, Pará) dos poetas Max Martins e Age de Carvalho -
"Na partida que jogam, sem vencedor nem vencido, tambouco existe adversário. Só a contigência de se lidar com palavras, de se utilizarem naipes já marcados por significações comuns, que vacilam a cada lance, constitui, como em toda poesia, jogo da linguagem à jusante ou à montante do tempo, a única adversidade necessária. Pois que para os autênticos poetas, apenas o tempo, que joga conosco - "brinquedo de criança", segundo Heráclito - é o verdadeiro e oculto parceiro, o contendor e a contenda. (Benedito Nunes, no Prefácio de "Fala entre Parêntesis")

8.15.2006

paraty


1


uma braçada
espalhas luzes
num tapete azul

,

aves negras são
felpas escuras
do tapete azul

,

a tarde refaz
em aguada baça
a serra - do mar
a moldura azul

,

mar (tapete azul)
se tornou noite
só - sem cintilar
de estrela alguma




2

(renga*)



eiichi

que paisagem
descrever daqui?
das ondas, o som
da garça, vulto
branco. Branco o
risco e pedaço
de nuvem e às
costas, o sol

felipe k.


daqui: a paisagem
à luz franca
- sem sombras, exceto
as próprias, do corpo -
uma ave que ronda
os barcos pesqueiros
mergulha no ar -
fundo branco



*renga: http://en.wikipedia.org/wiki/Renga

8.14.2006

duas impressões

;


eiichi:


um clarinete
sozinho calou
a preamar vir
, ave pousar e

calou o rufar de asa
e a marulha de
maré
sozinho
cegou a voz ao
lado ao lado a falar e
cortou as nuvens
toda aos pedaços
, deixou-nos ver a lua
calados
lassos
sós

.


felipe k.:


aquele que empunhou
um clarinete e era noite –
abismo de luzes
dispersas em breu
tropeçantes ondas
ao costado -
sua música emprestou
a tamanha
inequívoca beleza:
levitação



(após show de paulo moura no armazém do cais, paraty)



http://felipesudo.blog.uol.com.br/

partir de uma praça


,


a revoada de passos
deixa a praça e é apenas agora
pistas de poeira levantada e
lassidão e luz

não há sombras para se ver

- recolhemos todos seus vestígios para se fazer
a memória
lassa como dois passos que ficaram para trás
e fazemos nosso lastro disso


resta a nós

um tiro e um susto é um vento
que comove as
folhas e as farfalha
e se refazem as sombras
que se movem em novos passos

o que esperar? que um novo vento
num susto e farfalhar verde
se faça ai em gentes, como a frutos?


nos viramos para ir

um novo vento e
farfalhar verde

- essa gente ai nos irá esperar
até que voltemos à praça
, esta estampada de
lassidão e luz
na memória


.

(14 de agosto - praça matriz de paraty, ultimo dia, ultimo momento para irmos dali, voltarmos dali um ano...)

8.08.2006

.

me amanhece na
pele e memória
teu toque. pousa ali
cotidiano

(ave escrita ao céu)

cotidiano
me assombra na
memória o teu
toque. pousou ali

(ave rabisco em mim)

e permaneceu.
me conforta a
pele e memória
teu toque e teu rosto

(ave pousada em mim)

.

8.07.2006

caderno de viagem




.


percorremos na
tarde em neve (Tokyo
coalhada em branco)
um rio -
ali estavam
seus prédios ciliando
águas esquecidas
de andar,
uns casais sem
lembrança de um beijo
, e os corvos,

preenchendo
de grito e negro,
o que não havia

não havia
a lembrança do sol
, dum beijo



(tokyo, tarde de neve, passeio no rio)


.




宮島
Miyajima


um mar
tori vermelho
sinal no mar


tábuas corridas
- 8 - o assoalho
pontuando percorrer
de passos, o avanço
da preamar


(Hiroshima, 3 de março)


.

8.06.2006

do diário terno

.



há meses há um
ninho na janela e
seu par de aves
e seu trânsito
de galhos e
insetos ao bico

choveu tres dias

, ancorado a ti
na cama,
escutei uma
asa ou a dois
corações pequenos de aves
estremecendo
o silêncio da chuva
que andava lá fora




(quinta, 3 de agosto - terceira manhã de chuva)



.



ao fim da
tarde o sol sequer
nos aquece as costas,
posto detrás dos
prédios,
nalguma rua.
A multidão
largou seus pés na areia
e voltou pra alguma
rua detrás dos prédios
e ondas varrem
usuais aos pés da areia
e logo o mar e
noite serão mãos dadas
usuais sem ao
horizonte
como a uma
rua ruidosa


- estamos ali
silentes a ver
todas as coisas assim
a se refazerem -




(sábado, 5 de agosto - copacabana, fim de tarde)




.



depois que me
habituei ao
sem cor de dias de
chuva e aqui dentro
, portas e janelas
fechadas, andando
silvo da chaleira
passos em chinelos
dobras de lençois
rumor de pia
e nós dois
, um dia de sol
tem arestas e farpas




(domingo, 6 de agosto - dia de sol, só)




.


8.03.2006


.


viro a folha
do livro - uma asa que
ali pousara
voa só sem ao corpo
dono, morto em algum lugar


,

8.01.2006

haiku


.



Basho



o velho tanque


rã salt´
tomba
rumor de água



manhã branca


peixe branco
uma
polegada branca




.



Buson



canta o rouxinol


garganta miúda
- sol lua - raiando




(trad. Haroldo de Campos)



.



Issa



Damas todas, essas,
e reis jogados na caixa:
peças de xadrez




a lua se foi
meu rouxinou se calou
acabou-se a noit-




pérolas de orvalho
olho e vejo em cada gota
a minha casa-espelho




(trad. Décio Pignatari)


Basho

http://en.wikipedia.org/wiki/Matsuo_Basho

Busson

http://en.wikipedia.org/wiki/Yosa_Buson

Issa

http://haikuguy.com/issa/aboutissa.html