Octavio Paz
Charles Tomlinson
Jacques Roubaud
Edoardo Sanguinetti
IEl sol marcha sobre huesos ateridos:
en la cámara subterránea: gestaciones:
las bocas del metro son ya hormigueros.
Cesa el sueño: comienzan los lenguajes.
and the gestureless speech of things unfreezes
as the shadow, gathering under the vertical
raised lip of the columns´ fluting, spreads
its inkstain into the wrinkles of weathered stone:
Car la pierre peut-être est une vigne
la pierre où des fourmis jettent leur acide,
une parole préparée dans cette grotte
Principi, tomba e teca, sollevavo salive de spettri:
la mia mandibola mordeva le sue sillabe di sabbia:
ero reliquia e clessidra per i vetri dell´ occidente
.
O sol anda sobre ossos congelados:
na camera subterrânea: gestações:
as bocas do metro são já formigueiros.
Cessa o sonho: começam as linguagens.
E a fala sem gesto das coisas desata
como a sombra que, ao se congregar sob a vertical
estria saliente da coluna, espalha
sua mancha de tintas nas rugas da pedra gasta:
porque a pedra é talvez uma vinha
a pedra onde as formigas lançam seu ácido,
uma palavra preparada nesta gruta
princípios, tumba e cofre, levanto salivas do espectro:
minha mandíbula mordia suas sílabas de areia:
eu era relicário e relógio d´água pelos vidros do ocidente
(tradução: Eiichi)
*nota: esta tarde achei no Sebo Berinjela este precioso exemplar de Renga (Gallimard, 1971), do qual ouvira falar, mas nunca pensei em encontrar. Trata-se de uma experiencia poética: em abril de 1969 estes quatro poetas europeus isolaram-se por quatro dias num quarto de hotel para escrever diversos "rengas" que se interligam num único e extenso renga (que significa "cadeia de poemas") - forma poética japonesa coletiva, desenvolvida ainda no período Heian (794-1192), cujas regras são estritas e complexas, excluindo o mero jogo de azar e os caprichos de um diálogo fantástico e aleatório. Apresento a tradução do primeiro. A ordem de autoria segue a enumeração dos autores acima.
Há uma versão equivalente no Brasil: Fala entre parêntesis (Edições GRAPHO, 1982, Belém, Pará) dos poetas Max Martins e Age de Carvalho -
"Na partida que jogam, sem vencedor nem vencido, tambouco existe adversário. Só a contigência de se lidar com palavras, de se utilizarem naipes já marcados por significações comuns, que vacilam a cada lance, constitui, como em toda poesia, jogo da linguagem à jusante ou à montante do tempo, a única adversidade necessária. Pois que para os autênticos poetas, apenas o tempo, que joga conosco - "brinquedo de criança", segundo Heráclito - é o verdadeiro e oculto parceiro, o contendor e a contenda. (Benedito Nunes, no Prefácio de "Fala entre Parêntesis")