6.30.2008


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da ave sem asa

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quero uma banda de asa apenas
que acene de um galho que não se veja,
que lance aroma e vento sombril, que
não finja ser folha a fender luz em verde,
que me traga o som passado de praia,
cigarra e sapo que desenham ao pé do ocaso
a porta para o partir do sol.

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6.26.2008

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ruas traçadas
de riscos cheias
de roda de voz
de passos

resto de noite que se retira:
clari-chão. acariciando
tateante escorando paredes,
os dedos da aurora

um resto de vaidade nas luzes acesas
ressentimento nas luzes que se apagam.

marcando a primeira hora
ponteiro caído, longa sombra estendida:
um cão dormido.
relógio de sol.


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6.24.2008

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é puro nosso.

e as estrias de ruido de mar
e um parco aroma a maré
nos quer ferir.

algo de interminável
se insunua de lá fora e
se esconde,

depois, não pode servir
a nós nesta
noite.

logo não irá servir sequer o silêncio.


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vento noite

o negror se rompe e cresce

e então os passos que lanças na areia,

insones,

caminham, apagando-se.

é tarde para que chegues de volta. uma camisa

deixada para trás,

vermelho,

é o susto antes do sol que virá com a manhã -

o longuíssimo ocaso na tua partida sem palavras.




a montale

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e de montale:

longomar

a brisa cresce, o negror rompe e parte,
e a sombra que tu mandas sobr´a frágil
paliçada se encrespa. muito tarde

se vais ser tu mesma! da palma
cai o rato, a faísca sobr´o pavio
na longuissima linha do teu olhar.


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Lungomare

il soffio cresce, il buio è rotto a squarci,
e l´ombra che tu mandi sulla fragile
palizzata s´arriccia, troppo tardi

se vuoi esser te stessa! dalla palma
tonfa il sorcio, il baleno è sulla miccia,
sui lunghissimi cigli del suo sguardo.


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6.23.2008



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a nela entreabrir

descobre-se ausencia
eterna de leito:

a lua unanime
, sua guirlanda de diluir
o negro
até si,

 não está

a noite queima


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constelado em paragem  

um bafejo       um murmurio

é cedo

ninguém
escuta ou se vira em segredo

ouve-lhe o grito.

passaro nasce com a manhã


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6.18.2008





A canção de Ch'ang-Kan (Yüeh-Fu), anotado por Fenellosa 

6.13.2008





hora de fechar


quase à hora das lojas fecharem,
em frente ao coffee shop
uma mocinha de pés descalços e ombros nus
com uma voz em falsetto
começa a entoar uma antiga canção de ninar.
sandalias penduradas na mão esquerda,
sua mãe
grossas lágrimas começa a chorar chorar
e sua filha, fazer calar.
tentando proteger sua ária da mão da mãe
- vira o corpo - e os seios da mocinha
refletindo o brilho do verde do semáforo,
tremem viscosamente

em volta delas se estendem
os longos e muitos braços da noite, calmamente,
que de uma só vez, larga uma poeira de
odor suave no mundo
- como se sabe dos restos de uma asa de passarinho
que transborda em silêncio
da terra molhada –
quem saberia que tanta fragância havia nesta hora da noite?
- desprotegidos -
aqueles envoltos nas
pregas da tristeza


久谷 雉

6.12.2008




"um mundo sem palavras por tamura yuichi"

"Linguagem dos passaros", manuscrito de Tamura.

6.11.2008

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nu


窓のたい部屋があるように

心の世界には部屋のない窓がある 


蜜蜂の 翅音  

ひき裂かれる物と心の皮膚 

ある夏の日の雨の光り

そして死せる物のたかに


あなたは黙って立ちどまる

まだはっきりと物が生れたいまえに

行力不明になったあなたの心が 

窓のなかで叫んだとしても


ぼくの耳は彼女の声を聴かない

ぼくの眼は彼女の声を聴く


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nu


há salas sem janela

e no mundo do coração há janelas sem sala

entre zumbidos de abelha

há coisas retalhadasa pele do coração

o brilho da chuva ao sol no verão

e coisas mortas

tu ficas ai, sombria e de pé

e antes que tais coisas inanimadas

e disformes levantem, teu coração

grita pela janela


meu ouvido não ouve a voz dela

meu olho ouve a voz dela


Ryuichi Tamura



hoya
hoya agora
esta no meio do outono . eu agora
estou no meio do desespero
este estado de desespero
entranhou-se . tem raizes profundas
o verão incandescente finalmente acabou
vento de outono sopra de uma ponta a outra de musashino
negra musashino . reticente musashino - um ponto
é minha pequena casa
no meio dessa pequena casa
há minha pequena sala
no meio dessa pequena sala, acendo uma pequena lâmpada
observo o desespero a laborar
o desespero a deitar raizes profundas
em seu jardim solitario
e a fazer crescer uma gigantesca árvore
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6.10.2008

羽衣 ha.goromo



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風早の

vento . cedo (1)

三保の浦わを漕ぐ舟の。

navegam barcos pelas praias (2) de miho

浦人騒ぐ。波路かな

homens na costa alarmam (3) da via das ondas

pescador

これは三保の松原に。

do pinheiral de miho

白龍と申す漁夫にて候

hakuryou, o nome, um pescador. (4)

pescador pescadores

万里の好山に雲忽ちに起り。

mil e muitas as montanhas, belas – num átimo nuvens se esvaem (5)

一僂の明月に雨始めて晴れり。

do cumbre clariluna lua (6)

a chuva se vai. limpo enfim. (7)

げにのどかなる時しもや。

– uma estação de calma.

春のけしき松原の。波立ち

o pinheiral é a primavera. e as ondas

つずく朝靄。

bafejam a nevoa da manhã. (8)



月も残りの天の原。及びなき身

já céu não há: somente a lua que há no celeste. mesmo ao que

のな眺め にも

não pode ver, verá.

心空たる景色かな

– e no coração está o céu desta visão: (9)

忘れめや山路をわけて清見潟

que não se esquece os senderos das montanhas a mergulhar

nas planícies de kyomi.

遥かに三保の松原に。

e os pinheirais de miho ao longe:

立ち連れいざや通はん 立ち連れいざや通はん。

vamos para lá! partamos para lá!








風向ふ。雲の浮波立つと見て。

ao vento nuvens que se elevam como ondas: pode-se ver.


雲の浮波立つと見て。

vê-se nuvens que são ondas ao vento.



釣せで人や帰るらん。

mas retornam os pescadores sem pescar?

待て暫し春ならば吹くも

- espera - se não é a primavera que sopra

のどけき朝風の。

o calmo vento da manhã?

松は 常盤 の 声ぞかし。

o hálito dos sempiternos pinheirais, (10)
sua voz: (11)

波は音なき朝なきに。

e o soar das ondas no mar ao amanhecer.

釣人多き、小舟かな   釣人多き、小舟かな

pescadores e barquinhos

pescadores e barquinhos




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Notas:

Propus-me a fazer uma tradução de 羽衣 "hagoromo" (manto alado ou manto de penas) após a leitura estimulante da tradução de Haroldo de Campos (HAGOROMO DE ZEAMI, transcriação de Haroldo de Campos. Colaboração especial de Darci Yasuco Kusano e Elza Taeko Doi. Ilustrações de Tomie Ohtake. 2007. 2a edição – Bilíngüe japonês/português, 128 p. ISBN: 85-7448-117-3) para o mesmo texto do teatro noh japones, atribuído a Motokiyo Zeami (1363-1443). Resumidamente, o texto descreve o encontro do pescador Hakuryou com o Tennin, cujo manto alado (hagoromo) o pescador encontra esquecido em um pinheiro. Sem o manto o tennin não pode subir aos céus e este implora ao pescador que o devolva em troca de lhe apresentar uma dança celestial. Após convencer a ter seu manto alado devolvido, o tennin dança a peça prometida e retorna aos céus. Segundo definição de HC, o texto em questão é "um brocado de seda". A recorrência de imagens complementares e subliminares, também recorre à própria concepção do Tennin - "anjo" feminino do céu budista japones - dotado de um charme sutil e extrema elegância. Para uma introdução interessante ao texto, vide as notas escritas por HC em seu livro. As que seguem são minhas, segundo minha experiência na tradução do mesmo texto, do qual traduzi uma quinta parte apenas, a inicial. Espero em breve apresentar o restante da obra em minha versão...

1.早 - na acepção moderna de "rápido", Haroldo de Campos traduz "célere". Adoto o sentido antigo do ideograma, "cedo", "que antecede", "precoce", o qual ainda é utilizado em chinês - reforçando as imagens da manhã, as quais o poema tanto recorre.

2.浦わ (arawa) subtendido por mim como 浦曲 - "costa recortada" ou "baia", sinteticamente. O inverso, 曲浦 (kyoukuho) significa originalmente "costa ventilada" ou praia (atualmente talvez não mais utilizado). 曲 (kyoku) isoladamente tem diversos significados, dos quais dois me interessam - "dobras, curvas" ou mesmo "melodia" (considerando que esta é constituída por "curvas do som"). Impossível não associar este significado a 浦曲: uma costa em que há reentrâncias e vento. Logo, ao invés da imagem estática de "baia", adoto "praia", na qual a imagem o ruído (ou melodia) do vento que sopra é possível.

3 - Isento-me de acrescentar "meu nome" e "sou" na frase, uma vez que "nome" e "pescador" são precedidos e antecedidos, respectivamente, de partículas honorificas e não pronomes e verbos - "um pescador" aproxima-se mais à respeitosa apresentação em portugues, língua na qual inexiste formulas honorificas em uso corrente, como no japones.

4 - 騒ぐ (sawa.gu), "clamar", "fazer barulho", etc. Fique claro que esta imagem pontua, isoladamente, ruído e ação mais brusca à este quadro silencioso (apenas o som do vento) inicial.

5 - 万里 (banri) "10 mil vezes 4 quilometros" (里 "ri", uma antiga unidade utilizada no Japão, equivalente a aproximadamente 4km) que com 山 (yama), pode-nos sugerir "serra". 忽 (tachi) equivale a "subitamente", no entanto sua outra leitura (kotsu) equivale a "100 mil". Visualmente, 万里 e 忽 se completam com a idéia de grande quantidade: imensuráveis montanhas e nuvens.

6 - "clariluna - lua" foi uma solução encontrada com maestria por Haroldo de Campos, a qual adoto aqui por falta de uma outra a altura. 明 (mei), brilhante, constitui na combinação de dois ideogramas - sol e lua - que no texto antecede lua. Melhor explicação, deixo ao HC, no seu texto introdutório para sua tradução de "hagoromo" (vide referencia acima).

7 - 始めて晴れり - literalmente "pela primeira vez o tempo fica bom"

8 - 波立ちつずく朝靄。- literalmente “ondas levantam a névoa da manhã”. À frente, 靄 “névoa” (kezumi) sugere ser, juntamente com 声 “voz” (koe), manifestações da primavera viva: não mais “névoa”, mas um “bafejo” ou um “hálito”. Vide nota (10).

9 - 月も残りの天の原 - literalmente "a lua transborda (ou excede) do espaço do celeste". Por celeste, subentendo 天 (ten) que está mais para a concepção de "o celestial" (substantivado, céu como idéia) do que "céu" (físico). 原 (hara), como em 松原 (matsubara), significa "campo" ou neste caso, espaço (físico). Logo, "espaço celeste" - o céu 空 (sora) então já não há, apenas seu espaço ocupado pela lua que é maior que tudo (transborda, 月も残り). Vamos encontrar o céu então (空) no verso seguinte, habitando o coração 心 (kokoro).

10 - o ideograma 常 possui, dentre outras, duas leituras possíveis: "tsune" (substantivo ou adjetivo, se acrescido de "-no") como "usual", "estado de sempre" ou "toko" (advérbio) como "eternamente". 盤 (ban) pode indicar, dentre outras coisas “registro”, uma vez que sugere um quadro ou prato raso onde se escreve algo. Entendo ambos ideogramas como: “o registro da eternidade”. Esta ultima leitura é sugerida pelo eco que faz a 松 (matsu) "pinheiros" que o precede, ditos eternamente verdes: assim, traduzo-o em "sempiternamente" (palavra já usada em um poema de Mario de Andrade, "Ode á Burguesia").

11 - O poema já nos oferece esta imagem anteriormente, em 春ならば吹くものどけき朝風の (“a primavera sopra o calmo vento da manhã”). Em seguida, nos oferece 声 (koe) que equivale a "voz". Então aqui entendo 靄 (kezumi) "névoa" por "hálito" ou "bafejo": o que não é uma licença poética minha apenas. Atento que há a palavra 霞草 (kazumi.sou), "respiração de bebê" ou poeticamente "primeiro hálito", "hálito da vida". Logo, tanto "voz" 声 (koe), "névoa" 靄 (kezumi) e "vento" 風 (kaze) - também de sonoridades similares - completam-se em uma imagem de respiração da primavera 春 - seu hálito (靄, névoa) e sua voz 声 (no som 音 das ondas 波 e do vento 風).
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6.08.2008

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desperto de um sono breve
anonimo
desses sem sonhos,
desperto pela insistencia do
sino das seis horas - 


me recebe a aquarela do relogio da minha cidade
pintado pelo pintor morto, no quarto
é o que me recebe do sono


minha cidade é longe e nesta
em que desperto,
ninguem vive aqui



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