12.19.2006

dezembro

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1

mas no mar o
cintilar inquieto de agosto

se foi, deixando seus fragmentos nas
folhas verdíssimas da castanheira.

nada mais lamenta o inverno.
todos os ruídos não chegam.

não há vento e nesses dias longos,
tudo é preemente por terminar:

na rapidez hilariante das frutas
apodrecendo, a noite mal começada,

terminada. acordo no confinado
do quarto. ruidoso, sol e ventilador

2

a fragata suspende no vôo a maré do seu curso, as ondas, de vir.

flamejante, a luz passeia sobre tudo habitando de fantasmas e visões tremulantes da ilusão óptica o quadro do dia, que se anima em imobilidade glacial

e o mar promete uma fuga, qual imensa porta entreaberta.

mas o mar é o que derreteu da paisagem.

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12.17.2006



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Les souvenirs m´observent


Un matin de juin, alors qu´il est trop tôt
pour s´éveiller et trop tard pour se rendormir.
Je dois sortir dans la verdure saturée
des souvenirs, et ils me suivent des yeux.
Ils restent invisibles, ils se fondent
dans l´ensemble, parfais caméleóns.
Ils sont si près que j´entends leur haleine,
bien que le chant des oiseaux soit assourdissant.


as lembranças me observam


Uma manhã de junho: eis que é muito cedo
para levantar e muito tarde para adormecer.
Devo sair na verdura saturado
de lembranças, e seguem-me olhos.
Eles ficam invisíveis, fundem-se
ao conjunto, perfeito camalões.
Estão assim tão perto que lhes sinto o respirar,
embora o canto das aves seja de ensurdecer.



tomas tranströmer
(tradução eiichi)


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12.11.2006

dois sonos

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entre um porto - o do dia - e aquele em que acordamos - o outro dia - está o sono, o leito, o sonho (monstros ou quimeras descritas por alguns navegantes que tiveram a ventura de os ver). enquanto isso a cidade envelhece. ela não dorme, servindo aos que fazem a vigilia.
uma goteira nos acorda por seu monótono crescendo ou nos inunda e afoga: o sol. e surpresos nos vemos no outro porto, no outro dia. não somos nós a envelhecer, mas a cidade e com ela, os espelhos, que nos enganam. um dia chegamos num porto mais afastado, outro, de onde viemos e ao qual nos destinamos.
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retorno


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do avião,
da liberdade das alturas imensas,
nunca havia visto um por-do-sol.
é como um olho que fecha.
ao final, quando só há as pálpebras da noite,
abrem-se feridas luminosas na terra.


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(já estou em casa e desfaço-me da viagem)


aqui tenho uma fava: desfez-se:
rebentou sua simetria econômica.
as sementes,
uma-a-uma, com uma virulência monstruosa
começam a povoar de verdes minhas
visões rochosas
do sertão


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12.09.2006

diário de viagem



3. salvador


o mar é indiviso. o mar daqui, de cima, do quarto de hotel (numero 1015, uma vaga identidade): há sombras, e não nuvens, mas cartas, rastros de partidas e chegadas - sua espera - sua vileza e os cantos que o querem belo. é um lacre que nos veta das proximidades, só é lícito as distâncias, e o habita também os deuses e os naufrágios.

um barco a vela crispando ondas. oscila indiferente ao que dizem as canções, ao que ameaçam os deuses. é um inseto. o mar não se irá ocupar do pequeno barco. mas se não retornasse, teríamos acaso mais uma canção ao deus?



4. o sertão


acordei no meio de onde íamos. Sertão.
todas cores se aposentam e o verde inteiro não há. as plantas lançam galhos com precisão de alfinetes e tudo parece se afiar ou querer cortar. só não há o verde inteiro: ele é a sombra que cura.
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todo lugar viaja, e então, vem outro lugar que lhe fica no lugar, diverso, novo. Mas aqui, ancorou. lançou dedos inumeráveis que se agarram à paisagem - mandacarus.
no horizonte, foge um gavião.
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não há árvores. suas copas verdes se volatilizaram ao céu, brancas, nuvens, e agora viajam pra qualquer lugar que seja norte, que seja longe. os troncos, os galhos já não esperam que retornem.
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o redemunho de urubus é o único cheiro que vejo.
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encontro a primeira pegada dizendo que há gente: um pedaço de lugar plantado de milho. e mais outro pedaço e logo há mais coisas do que só eu e a estrada: uma casa. no cercado, camisas, lençóis e um vestido que gargalha insolente todas as cores no jardim estampado.


5. a chapada
aqui dizem haver "tocas onde os indios se metiam". isto no tempo do que se ouviu dizer, não o mais antigo ou o dos avós. o lugar é próprio: se encastelam no alto de um morro, torres de pedra, reintrâncias e vãos se abrem em estreitas portas e um declive muito amplo, de lages oxidadas, rajadas de ferrugem e umidade antiga, termina num remanso de água. foi um lar, onde essa gente viu o sagrado ou antes, saber que viviam aqui é que sagrou o lugar. por um instante. agora volta a ser paisagem anônima onde há uma estrada a lhe cortar e onde venho perder minha caneta, lamentando não haver outra até que volte para meu lar.

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aqui me reconcilio ao verde. não há qualquer voz de abandono do cinza e as nuvens, estas se movem, sem pressa. não há fuga e há o reboliço de tudo: lagartas, formigas, mamangabas esmaltadas, brotos nos galhos. não há flores: somente o azul, o vemelho (de terracota, recém cozida) e o verde novo. somente com isso o mundo se começou, sem flores, pois há nelas um final.

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encontro no lagedo um sinal: um círculo: os indios também estiveram aqui e ancoraram este mundo imprevisível e irregular com a simetria que conheciam.
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há visões mais distintas, dicernidas, pois nos olham depois de mortas: esta paisagem, por exemplo.

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