12.09.2006

diário de viagem



3. salvador


o mar é indiviso. o mar daqui, de cima, do quarto de hotel (numero 1015, uma vaga identidade): há sombras, e não nuvens, mas cartas, rastros de partidas e chegadas - sua espera - sua vileza e os cantos que o querem belo. é um lacre que nos veta das proximidades, só é lícito as distâncias, e o habita também os deuses e os naufrágios.

um barco a vela crispando ondas. oscila indiferente ao que dizem as canções, ao que ameaçam os deuses. é um inseto. o mar não se irá ocupar do pequeno barco. mas se não retornasse, teríamos acaso mais uma canção ao deus?



4. o sertão


acordei no meio de onde íamos. Sertão.
todas cores se aposentam e o verde inteiro não há. as plantas lançam galhos com precisão de alfinetes e tudo parece se afiar ou querer cortar. só não há o verde inteiro: ele é a sombra que cura.
.
todo lugar viaja, e então, vem outro lugar que lhe fica no lugar, diverso, novo. Mas aqui, ancorou. lançou dedos inumeráveis que se agarram à paisagem - mandacarus.
no horizonte, foge um gavião.
.
não há árvores. suas copas verdes se volatilizaram ao céu, brancas, nuvens, e agora viajam pra qualquer lugar que seja norte, que seja longe. os troncos, os galhos já não esperam que retornem.
.
o redemunho de urubus é o único cheiro que vejo.
.
encontro a primeira pegada dizendo que há gente: um pedaço de lugar plantado de milho. e mais outro pedaço e logo há mais coisas do que só eu e a estrada: uma casa. no cercado, camisas, lençóis e um vestido que gargalha insolente todas as cores no jardim estampado.


5. a chapada
aqui dizem haver "tocas onde os indios se metiam". isto no tempo do que se ouviu dizer, não o mais antigo ou o dos avós. o lugar é próprio: se encastelam no alto de um morro, torres de pedra, reintrâncias e vãos se abrem em estreitas portas e um declive muito amplo, de lages oxidadas, rajadas de ferrugem e umidade antiga, termina num remanso de água. foi um lar, onde essa gente viu o sagrado ou antes, saber que viviam aqui é que sagrou o lugar. por um instante. agora volta a ser paisagem anônima onde há uma estrada a lhe cortar e onde venho perder minha caneta, lamentando não haver outra até que volte para meu lar.

.

aqui me reconcilio ao verde. não há qualquer voz de abandono do cinza e as nuvens, estas se movem, sem pressa. não há fuga e há o reboliço de tudo: lagartas, formigas, mamangabas esmaltadas, brotos nos galhos. não há flores: somente o azul, o vemelho (de terracota, recém cozida) e o verde novo. somente com isso o mundo se começou, sem flores, pois há nelas um final.

.

encontro no lagedo um sinal: um círculo: os indios também estiveram aqui e ancoraram este mundo imprevisível e irregular com a simetria que conheciam.
.
há visões mais distintas, dicernidas, pois nos olham depois de mortas: esta paisagem, por exemplo.

.