9.17.2008

日光


卯月朔日、御山に詣拝す。往昔、此御山を「二荒山」と書しを空海大師開基の時「日光」と改給ふ。千歳未来をさとり給ふにや。今此御光一天にかゞやきて恩沢八荒にあふれ、四民安堵の栖穏なり。猶憚多くて筆をさし置ぬ。


あらたうと青葉若葉の日の光


黒髪山は霞かゝりて、雪いまだ白し。


剃捨て黒髪山に衣更 曾良


曾良は河合氏にして、 惣五郎と云へり芭蕉の下葉に軒をならべて予が薪水の労をたすく。このたび松しま象潟の眺共にせん事を悦び、且は羈旅の難をいたはらんと旅立暁髪を剃て墨染にさまをかえ惣五を改て宗悟とす。仍て黒髪山の句有。「衣更」の二字力ありてきこゆ。

廿餘丁山を登つて瀧有。岩洞の頂より飛流して百尺千岩の碧潭に落たり。 岩窟に身をひそめて入て]滝の裏よりみれば、うらみの瀧と申傳え侍る也。

暫時は瀧に篭るや夏の初



.


Nikko


Ao primeiro dia do quarto mês, chegou-se à honorável montanha em peregrinagem. Antigamente, esta honorável montanha era grafada "Nikou" (duas tormentas), quando o grande mestre Koukai, da fundação do templo, trocou seu nome para "Nikko" (brilho do sol). Em mil anos para além o mestre previu, pois a bênção (deste lugar) agora atinge desde o firmamento, radiando até as bordas do país, transbordante, e as quatro classes (1) alivia em abrigo e quietude desde então:

vívidas as verdes
folhas, tenras folhas:
nelas o brilho do sol (2)

O monte Kurogami (3) envolto em névoa, em neve ainda embranquecido:

desfeito de cabelos,
monte Kurogami
troca de manto (4) Sora

Sora tem por nome de familia, Kawai, e Sougorou chamado. Sob as folhas da bananeira (5) fez morada, e me ajuda com a peleja por lenha e água. Nesta ocasião, ele está deliciado de poder ver a paisagem de Matsushima e Kisagata. E desde então, está comigo nas dificuldades do viajante e nas adversidades (da viajem). No dia da partida, raspou os cabelos e mudou para hábitos tingidos de negro. Sougorou então passou a chamar-se Sogou (o iluminado pela crença). E por isso do poema do monte Kurogami. "Troca de manto" - estas duas palavras têm muita força e por isso o felicito.

Subimos mais vinte jardas na montanha e lá havia uma cascata. E na rocha, uma cavidade, da qual se via do pico (a água) se derramar desde o mais alto para as mil pedras dum abismo verde-azul no seu final.

Nesta caverna alguem pode se abrigar e ver a cascata no seu reverso. E por isso é chamada pelo nome "Urami-no-taki" (cascata da vista reversa):

por um momento
na cascata recluso -
um novo verão (6)



.


(1) しみん - As quatro classes, conforme dividido no período Edo: samurai, fazendeiro, artesão e mercador.


(2) neste haiku, ecoa Wang Wei e seu poema, no qual, ainda que haja luz declinante da tarde, no fundo da floresta brilha a erva - é o "satori" (iluminação) zen. O poema:


空山不見人,
但聞人語響
返景入深林
復照青苔上
ermo monte nem gente vista
só ouvido raro eco de voz
luz vinda do ocaso
na mata entra
acende musgo verde:
claror ressurge
(tradução minha)

Mesmo o proprio Basho apresenta um outro haiku, o qual se aproxima à mesma imagem:

須磨寺や吹かね笛聞く木下闇

templo de suma -
ouvido o silvo da flauta
sob a sombra da mata

E eis uma variação do haiku de Nikko apresentado pelo mestre -

あらたふと木の下闇も日の光

súbita evidência -
sob a sombra da mata
mais o brilho do sol

atentar que em ambos os poemas - あらた.ふと - pode ser traduzido literalmente como "súbita evidência" (aqui, novamente o "satori" - a súbita iluminação), como também ふと é uma das leituras de Buda, neste caso, grafado 仏図, assim como "templo budista" - assim teríamos a expressão "evidente Buda (...)".

E finalmente, Sora nos apresenta uma outra variação do waka proposto pelo mestre -

あなたふと木の下闇も日の光

e seu sobressalto -
sob a sombra da mata
mais o brilho do sol

- "anata-futo" brinca em aliteração com "arata-futo" das demais versões - assim a subita evidência do Buda em uma das mil coisas, visto por Basho, torna-se aos olhos do discípulo, a evidência do Buda pelo sobressalto do mestre.

(3) 黒髪 - "cabelos negros".

(4) こうい (更衣) - era prática de "troca das vestes" praticada pelos nobres, sazonalmente. Vide no Manyoushu, este waka da Imperatriz Jitou, no qual "já vem o verão (...) mantos secam ao sol" refere-se nada mais do que nas roupas brancas que eram lavadas e preparadas para a troca de verão.

(5) 芭蕉 - bashou - o nome do proprio poeta. Sabe-se que este tinha uma bananeira plantada no quintal pelos vizinhos, quando mudou-se para Edo. E desde então, adotou como seu nome próprio, o nome da planta. Deste modo, refere-se tanto que Sora era seu discipulo, como poderia ter morado com ele.

(6) "um novo verão", não de "renovado", mas como um primeiro ou recém-começado: a exuberância da cascata faz o poeta pensar que o verão não só começou, como é em tudo diferente...





2 Comments:

Blogger Márcia Maia said...

Interessantíssimo, explicado assim. Além da beleza inerente e imanente à própria poesia.

Um beijo daqui.

29 10月, 2008 11:36  
Anonymous 匿名 said...

mas que blog bonito! parabéns.

08 11月, 2008 18:49  

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