羽衣 ha.goromo
.
風早の
vento . cedo (1)
三保の浦わを漕ぐ舟の。
navegam barcos pelas praias (2) de miho
浦人騒ぐ。波路かな
homens na costa alarmam (3) da via das ondas
pescador
これは三保の松原に。
do pinheiral de miho
白龍と申す漁夫にて候
hakuryou, o nome, um pescador. (4)
pescador pescadores
万里の好山に雲忽ちに起り。
mil e muitas as montanhas, belas – num átimo nuvens se esvaem (5)
一僂の明月に雨始めて晴れり。
do cumbre clariluna lua (6)
a chuva se vai. limpo enfim. (7)
げにのどかなる時しもや。
– uma estação de calma.
春のけしき松原の。波立ち
o pinheiral é a primavera. e as ondas
つずく朝靄。
bafejam a nevoa da manhã. (8)
月も残りの天の原。及びなき身
já céu não há: somente a lua que há no celeste. mesmo ao que
のな眺め にも
não pode ver, verá.
心空たる景色かな
– e no coração está o céu desta visão: (9)
忘れめや山路をわけて清見潟
que não se esquece os senderos das montanhas a mergulhar
nas planícies de kyomi.
遥かに三保の松原に。
e os pinheirais de miho ao longe:
立ち連れいざや通はん 立ち連れいざや通はん。
vamos para lá! partamos para lá!
風向ふ。雲の浮波立つと見て。
ao vento nuvens que se elevam como ondas: pode-se ver.
雲の浮波立つと見て。
vê-se nuvens que são ondas ao vento.
釣せで人や帰るらん。
mas retornam os pescadores sem pescar?
待て暫し春ならば吹くも
- espera - se não é a primavera que sopra
のどけき朝風の。
o calmo vento da manhã?
松は 常盤 の 声ぞかし。
o hálito dos sempiternos pinheirais, (10)
sua voz: (11)
波は音なき朝なきに。
e o soar das ondas no mar ao amanhecer.
釣人多き、小舟かな 釣人多き、小舟かな
pescadores e barquinhos
pescadores e barquinhos
.
Notas:
Propus-me a fazer uma tradução de 羽衣 "hagoromo" (manto alado ou manto de penas) após a leitura estimulante da tradução de Haroldo de Campos (HAGOROMO DE ZEAMI, transcriação de Haroldo de Campos. Colaboração especial de Darci Yasuco Kusano e Elza Taeko Doi. Ilustrações de Tomie Ohtake. 2007. 2a edição – Bilíngüe japonês/português, 128 p. ISBN: 85-7448-117-3) para o mesmo texto do teatro noh japones, atribuído a Motokiyo Zeami (1363-1443). Resumidamente, o texto descreve o encontro do pescador Hakuryou com o Tennin, cujo manto alado (hagoromo) o pescador encontra esquecido em um pinheiro. Sem o manto o tennin não pode subir aos céus e este implora ao pescador que o devolva em troca de lhe apresentar uma dança celestial. Após convencer a ter seu manto alado devolvido, o tennin dança a peça prometida e retorna aos céus. Segundo definição de HC, o texto em questão é "um brocado de seda". A recorrência de imagens complementares e subliminares, também recorre à própria concepção do Tennin - "anjo" feminino do céu budista japones - dotado de um charme sutil e extrema elegância. Para uma introdução interessante ao texto, vide as notas escritas por HC em seu livro. As que seguem são minhas, segundo minha experiência na tradução do mesmo texto, do qual traduzi uma quinta parte apenas, a inicial. Espero em breve apresentar o restante da obra em minha versão...
1.早 - na acepção moderna de "rápido", Haroldo de Campos traduz "célere". Adoto o sentido antigo do ideograma, "cedo", "que antecede", "precoce", o qual ainda é utilizado em chinês - reforçando as imagens da manhã, as quais o poema tanto recorre.
2.浦わ (arawa) subtendido por mim como 浦曲 - "costa recortada" ou "baia", sinteticamente. O inverso, 曲浦 (kyoukuho) significa originalmente "costa ventilada" ou praia (atualmente talvez não mais utilizado). 曲 (kyoku) isoladamente tem diversos significados, dos quais dois me interessam - "dobras, curvas" ou mesmo "melodia" (considerando que esta é constituída por "curvas do som"). Impossível não associar este significado a 浦曲: uma costa em que há reentrâncias e vento. Logo, ao invés da imagem estática de "baia", adoto "praia", na qual a imagem o ruído (ou melodia) do vento que sopra é possível.
3 - Isento-me de acrescentar "meu nome" e "sou" na frase, uma vez que "nome" e "pescador" são precedidos e antecedidos, respectivamente, de partículas honorificas e não pronomes e verbos - "um pescador" aproxima-se mais à respeitosa apresentação em portugues, língua na qual inexiste formulas honorificas em uso corrente, como no japones.
4 - 騒ぐ (sawa.gu), "clamar", "fazer barulho", etc. Fique claro que esta imagem pontua, isoladamente, ruído e ação mais brusca à este quadro silencioso (apenas o som do vento) inicial.
5 - 万里 (banri) "10 mil vezes 4 quilometros" (里 "ri", uma antiga unidade utilizada no Japão, equivalente a aproximadamente 4km) que com 山 (yama), pode-nos sugerir "serra". 忽 (tachi) equivale a "subitamente", no entanto sua outra leitura (kotsu) equivale a "100 mil". Visualmente, 万里 e 忽 se completam com a idéia de grande quantidade: imensuráveis montanhas e nuvens.
6 - "clariluna - lua" foi uma solução encontrada com maestria por Haroldo de Campos, a qual adoto aqui por falta de uma outra a altura. 明 (mei), brilhante, constitui na combinação de dois ideogramas - sol e lua - que no texto antecede lua. Melhor explicação, deixo ao HC, no seu texto introdutório para sua tradução de "hagoromo" (vide referencia acima).
7 - 始めて晴れり - literalmente "pela primeira vez o tempo fica bom"
8 - 波立ちつずく朝靄。- literalmente “ondas levantam a névoa da manhã”. À frente, 靄 “névoa” (kezumi) sugere ser, juntamente com 声 “voz” (koe), manifestações da primavera viva: não mais “névoa”, mas um “bafejo” ou um “hálito”. Vide nota (10).
9 - 月も残りの天の原 - literalmente "a lua transborda (ou excede) do espaço do celeste". Por celeste, subentendo 天 (ten) que está mais para a concepção de "o celestial" (substantivado, céu como idéia) do que "céu" (físico). 原 (hara), como em 松原 (matsubara), significa "campo" ou neste caso, espaço (físico). Logo, "espaço celeste" - o céu 空 (sora) então já não há, apenas seu espaço ocupado pela lua que é maior que tudo (transborda, 月も残り). Vamos encontrar o céu então (空) no verso seguinte, habitando o coração 心 (kokoro).
10 - o ideograma 常 possui, dentre outras, duas leituras possíveis: "tsune" (substantivo ou adjetivo, se acrescido de "-no") como "usual", "estado de sempre" ou "toko" (advérbio) como "eternamente". 盤 (ban) pode indicar, dentre outras coisas “registro”, uma vez que sugere um quadro ou prato raso onde se escreve algo. Entendo ambos ideogramas como: “o registro da eternidade”. Esta ultima leitura é sugerida pelo eco que faz a 松 (matsu) "pinheiros" que o precede, ditos eternamente verdes: assim, traduzo-o em "sempiternamente" (palavra já usada em um poema de Mario de Andrade, "Ode á Burguesia").
11 - O poema já nos oferece esta imagem anteriormente, em 春ならば吹くものどけき朝風の (“a primavera sopra o calmo vento da manhã”). Em seguida, nos oferece 声 (koe) que equivale a "voz". Então aqui entendo 靄 (kezumi) "névoa" por "hálito" ou "bafejo": o que não é uma licença poética minha apenas. Atento que há a palavra 霞草 (kazumi.sou), "respiração de bebê" ou poeticamente "primeiro hálito", "hálito da vida". Logo, tanto "voz" 声 (koe), "névoa" 靄 (kezumi) e "vento" 風 (kaze) - também de sonoridades similares - completam-se em uma imagem de respiração da primavera 春 - seu hálito (靄, névoa) e sua voz 声 (no som 音 das ondas 波 e do vento 風).
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風早の
vento . cedo (1)
三保の浦わを漕ぐ舟の。
navegam barcos pelas praias (2) de miho
浦人騒ぐ。波路かな
homens na costa alarmam (3) da via das ondas
pescador
これは三保の松原に。
do pinheiral de miho
白龍と申す漁夫にて候
hakuryou, o nome, um pescador. (4)
pescador pescadores
万里の好山に雲忽ちに起り。
mil e muitas as montanhas, belas – num átimo nuvens se esvaem (5)
一僂の明月に雨始めて晴れり。
do cumbre clariluna lua (6)
a chuva se vai. limpo enfim. (7)
げにのどかなる時しもや。
– uma estação de calma.
春のけしき松原の。波立ち
o pinheiral é a primavera. e as ondas
つずく朝靄。
bafejam a nevoa da manhã. (8)
月も残りの天の原。及びなき身
já céu não há: somente a lua que há no celeste. mesmo ao que
のな眺め にも
não pode ver, verá.
心空たる景色かな
– e no coração está o céu desta visão: (9)
忘れめや山路をわけて清見潟
que não se esquece os senderos das montanhas a mergulhar
nas planícies de kyomi.
遥かに三保の松原に。
e os pinheirais de miho ao longe:
立ち連れいざや通はん 立ち連れいざや通はん。
vamos para lá! partamos para lá!
風向ふ。雲の浮波立つと見て。
ao vento nuvens que se elevam como ondas: pode-se ver.
雲の浮波立つと見て。
vê-se nuvens que são ondas ao vento.
釣せで人や帰るらん。
mas retornam os pescadores sem pescar?
待て暫し春ならば吹くも
- espera - se não é a primavera que sopra
のどけき朝風の。
o calmo vento da manhã?
松は 常盤 の 声ぞかし。
o hálito dos sempiternos pinheirais, (10)
sua voz: (11)
波は音なき朝なきに。
e o soar das ondas no mar ao amanhecer.
釣人多き、小舟かな 釣人多き、小舟かな
pescadores e barquinhos
pescadores e barquinhos
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Notas:
Propus-me a fazer uma tradução de 羽衣 "hagoromo" (manto alado ou manto de penas) após a leitura estimulante da tradução de Haroldo de Campos (HAGOROMO DE ZEAMI, transcriação de Haroldo de Campos. Colaboração especial de Darci Yasuco Kusano e Elza Taeko Doi. Ilustrações de Tomie Ohtake. 2007. 2a edição – Bilíngüe japonês/português, 128 p. ISBN: 85-7448-117-3) para o mesmo texto do teatro noh japones, atribuído a Motokiyo Zeami (1363-1443). Resumidamente, o texto descreve o encontro do pescador Hakuryou com o Tennin, cujo manto alado (hagoromo) o pescador encontra esquecido em um pinheiro. Sem o manto o tennin não pode subir aos céus e este implora ao pescador que o devolva em troca de lhe apresentar uma dança celestial. Após convencer a ter seu manto alado devolvido, o tennin dança a peça prometida e retorna aos céus. Segundo definição de HC, o texto em questão é "um brocado de seda". A recorrência de imagens complementares e subliminares, também recorre à própria concepção do Tennin - "anjo" feminino do céu budista japones - dotado de um charme sutil e extrema elegância. Para uma introdução interessante ao texto, vide as notas escritas por HC em seu livro. As que seguem são minhas, segundo minha experiência na tradução do mesmo texto, do qual traduzi uma quinta parte apenas, a inicial. Espero em breve apresentar o restante da obra em minha versão...
1.早 - na acepção moderna de "rápido", Haroldo de Campos traduz "célere". Adoto o sentido antigo do ideograma, "cedo", "que antecede", "precoce", o qual ainda é utilizado em chinês - reforçando as imagens da manhã, as quais o poema tanto recorre.
2.浦わ (arawa) subtendido por mim como 浦曲 - "costa recortada" ou "baia", sinteticamente. O inverso, 曲浦 (kyoukuho) significa originalmente "costa ventilada" ou praia (atualmente talvez não mais utilizado). 曲 (kyoku) isoladamente tem diversos significados, dos quais dois me interessam - "dobras, curvas" ou mesmo "melodia" (considerando que esta é constituída por "curvas do som"). Impossível não associar este significado a 浦曲: uma costa em que há reentrâncias e vento. Logo, ao invés da imagem estática de "baia", adoto "praia", na qual a imagem o ruído (ou melodia) do vento que sopra é possível.
3 - Isento-me de acrescentar "meu nome" e "sou" na frase, uma vez que "nome" e "pescador" são precedidos e antecedidos, respectivamente, de partículas honorificas e não pronomes e verbos - "um pescador" aproxima-se mais à respeitosa apresentação em portugues, língua na qual inexiste formulas honorificas em uso corrente, como no japones.
4 - 騒ぐ (sawa.gu), "clamar", "fazer barulho", etc. Fique claro que esta imagem pontua, isoladamente, ruído e ação mais brusca à este quadro silencioso (apenas o som do vento) inicial.
5 - 万里 (banri) "10 mil vezes 4 quilometros" (里 "ri", uma antiga unidade utilizada no Japão, equivalente a aproximadamente 4km) que com 山 (yama), pode-nos sugerir "serra". 忽 (tachi) equivale a "subitamente", no entanto sua outra leitura (kotsu) equivale a "100 mil". Visualmente, 万里 e 忽 se completam com a idéia de grande quantidade: imensuráveis montanhas e nuvens.
6 - "clariluna - lua" foi uma solução encontrada com maestria por Haroldo de Campos, a qual adoto aqui por falta de uma outra a altura. 明 (mei), brilhante, constitui na combinação de dois ideogramas - sol e lua - que no texto antecede lua. Melhor explicação, deixo ao HC, no seu texto introdutório para sua tradução de "hagoromo" (vide referencia acima).
7 - 始めて晴れり - literalmente "pela primeira vez o tempo fica bom"
8 - 波立ちつずく朝靄。- literalmente “ondas levantam a névoa da manhã”. À frente, 靄 “névoa” (kezumi) sugere ser, juntamente com 声 “voz” (koe), manifestações da primavera viva: não mais “névoa”, mas um “bafejo” ou um “hálito”. Vide nota (10).
9 - 月も残りの天の原 - literalmente "a lua transborda (ou excede) do espaço do celeste". Por celeste, subentendo 天 (ten) que está mais para a concepção de "o celestial" (substantivado, céu como idéia) do que "céu" (físico). 原 (hara), como em 松原 (matsubara), significa "campo" ou neste caso, espaço (físico). Logo, "espaço celeste" - o céu 空 (sora) então já não há, apenas seu espaço ocupado pela lua que é maior que tudo (transborda, 月も残り). Vamos encontrar o céu então (空) no verso seguinte, habitando o coração 心 (kokoro).
10 - o ideograma 常 possui, dentre outras, duas leituras possíveis: "tsune" (substantivo ou adjetivo, se acrescido de "-no") como "usual", "estado de sempre" ou "toko" (advérbio) como "eternamente". 盤 (ban) pode indicar, dentre outras coisas “registro”, uma vez que sugere um quadro ou prato raso onde se escreve algo. Entendo ambos ideogramas como: “o registro da eternidade”. Esta ultima leitura é sugerida pelo eco que faz a 松 (matsu) "pinheiros" que o precede, ditos eternamente verdes: assim, traduzo-o em "sempiternamente" (palavra já usada em um poema de Mario de Andrade, "Ode á Burguesia").
11 - O poema já nos oferece esta imagem anteriormente, em 春ならば吹くものどけき朝風の (“a primavera sopra o calmo vento da manhã”). Em seguida, nos oferece 声 (koe) que equivale a "voz". Então aqui entendo 靄 (kezumi) "névoa" por "hálito" ou "bafejo": o que não é uma licença poética minha apenas. Atento que há a palavra 霞草 (kazumi.sou), "respiração de bebê" ou poeticamente "primeiro hálito", "hálito da vida". Logo, tanto "voz" 声 (koe), "névoa" 靄 (kezumi) e "vento" 風 (kaze) - também de sonoridades similares - completam-se em uma imagem de respiração da primavera 春 - seu hálito (靄, névoa) e sua voz 声 (no som 音 das ondas 波 e do vento 風).
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