7.01.2006

histórias familiares

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"- Arranque-lhe a
cabeça e a guardes na
petisqueira da
copa" (entre bolos que
esfriam, potes
de compota e caixas
de biscoitos) "de
manhã o marmorite
não será frio nem
de tarde o sol lhe toca,
suando-lhe as
bochechas, amolecendo
os biscoitos nem
moscas verdes" (ou
desagravos de amor) "lhe
pousará à testa -
há um lenço de renda
pra os cobrir, há
as crianças que roubam
na sesta doces
e podem quebrar louça
ou a cabeça... "

(sempre a cabeça
entre cheiros de doces
e a fumaça
da alfazema e folhas
frescas de oriza)

No marmorite verde
(madrepélolas
ao invés do mármore)
muda a cabeça
como um monstro marinho
que adormece num
glauco de algas. Dias
de festa, orna-a
papeis-de-seda brancos
dos alfinins e
suja-a de amarelo os
ovos moles dos
pasteis santa clara e os
respingos do arroz
de galinha. Ao final,
passa a noite com a
louça suja na pia.
Dias de calor
sua-lhe as têmporas e ao
frio, mofa-lhe o
nariz, mas sempre o olhar
de atenção.

Herdei
petisqueira, louça e a
cabeça quando
minha vó morreu. Trouxe-as,
memórias caras
da infância. Não importa
se a louça é kitsch
e a cabeça, démodé:
há nas rosas pintadas
das xícaras e
nos olhos atentos da
cabeça o sabor
dos alfinins, o cheiro da
oriza fresca
e quando faço o arroz de
galinha, a cabeça sorri.

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1 Comments:

Blogger Fugu said...

Uma poema com jeito de conto ... Quanto mais eu leio, mais vejo aí uma narrativa. Uma narrativa forte.

04 7月, 2006 19:56  

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