8.15.2008





李商隠 リショウイン

(livre tradução de poema sem título de Li Shang'yin)

ver-nos tão difícil, mas
partir é mais difícil -

o vento leste mal sopra e mil
as flores caídas da primavera

o bicho medra seu fio-pensar
em seda  até  a morte

a cera na vela queima em cinzas
o cerne,  mal  secas  as lágrimas.

ocaso.          um espelho: num lamento
vês teu negro tocado em nuvens vertido

canto.    na madrugada fustiga
o toque friento do brilho da lua 

- daqui não há tanta estrada para Péng lai (1)
ave azul, vai, segue e guia-me até ela.

.

(1) montanhas descritas em contos de fada tradicionais

.

(versão do mesmo poema, por Haroldo de Campos)

Vê-la difícil. Não vê-la, mais difícil,
que pode o vento contra as flores cadentes? (1)
Bicho-da-seda se obseda até a morte com o seu fio. (2)
A lâmpada se extingue em lágrimas: coração e cinzas.
No espelho, seu temor: o toucado de nuvens.
À noite, seu tremor: os friúmes da lua.
Não é longe, daqui ao monte P'eng,
Ave azul, olho azougue, fala-lhe de mim.

(Haroldo de Campos, A operação do texto. São Paulo, Perspective, 1976, p. 147)


A versão de HC em muito superior, alcançou no portugues as sutilezas equivalentes do texto chinês. Dois pontos de destaque: (1) o vento leste fraco é sinal do fim da primavera na poesia chinesa. A imagem de "flores cadentes" transfere esta imagem ao entendimento moderno, ao leitor comum, com grande eficiência; (2) "seda" e "reflexão, pensamento" são honônimos no chinês, embora grafados com diferentes caracteres. "Seda" e "obseda" na tradução de HC é em tudo perfeita.